DEVANEIOS DA ESPERA
Tem dias que minha mente se transporta para o sideral, em meio às estrelas.
Entre o desejo da fuga desesperada e a vontade de que algo aconteça, algo em mim começa a unir os pontos luminosos com linhas tão brilhantes quanto.
É uma missão interminável. O inconsciente se mete na empreitada e desvia a ponta do lápis a seu bel-prazer, ao reconstruir figuras de um tempo que nem sequer testemunhei.
Tudo é confuso, ao mesmo tempo que libertador, até o instante em que o buraco negro, com seu apetite galáctico, resolve absorver tudo para si — e isso inclui partes do que é físico em mim.
Ele é a incerteza, a insegurança, talvez até o medo, mas o que melhor o resume é a culpa.
O culpado de tudo, culpado de ter culpa e culpado de nada.
É atordoante em seus mistérios, do que se lembra transitando ao que não se recorda e delirando situações entre um universo e outro. Nesse mundo, é tudo verídico, com testemunhas supra reais que causariam inveja ao escritor de Alice.
Tem brilho convivendo harmonicamente com a escuridão tênue.
O corpo dormente, com insanidade no mais alto índice de realização.
O pensamento começa a questionar o sensório e querer influenciar a matéria a se juntar ao planeta flutuante.
É tentador, sobretudo para alguém que não sabe esperar, a ideia de se livrar dos sapatos apertados, da derme reclamante e mãos inquietas, da tragédia da incompletude.
Ali eu não sou nada. Sou luz e breu, o querer e o esquecer.
Sou a dualidade, o conflito, a guerra na maior paz possível.
O pensamento me abraça carinhosamente. De um jeito incrível, ele me defende do Galactus mental sem se eximir do poder de julgar, absorver e condenar, frente às minhas loucuras que também são dele.
Mas ele tem a divina façanha de se fazer inimputável, jogando lá pro incansável batedor, a tal da culpa de se envolver com o perigo de viver.
A serpente que seduziu a macieira, para se insinuar tão atraente aos olhos do ingênuo, se enrosca entre sinapses perturbadas desta estrada espinhal.
É a sedução do velho conhecido “imoral, ilegal e engorda”, servida de bandeja ao acaso com requintes de sobremesa.
Ou posso dizer coincidências trágicas do infortúnio...
É hora de regressar às ilusões do mundo cavernoso real.
segunda, 06 ~ quarta, 08 de outubro de 2025